Comentário/reflexão

(…) a utopia é algo que colocamos no nosso horizonte, damos dez passos e ela afasta-se dez passos, damos mais dez passos e ela afasta-se outros dez. Mas é para isso mesmo que ela serve para nos fazer caminhar. 

Eduardo Galeano 

Acredito que perante tal força da utopia e de toda a história e relevância que lhe está inerente, existe uma terceira visão, que talvez seja aquela com que mais me identifico: a da utopia enquanto processo e caminhada. Ou seja, por outras palavras, aquela que a encara como um caminho, como um meio e curso e não somente um fim ou ideologia a realizar. Também Eduardo Galeano, atribui este significado ao conceito de utopia e, como o próprio diz, ela serve para nos fazer caminhar. 

O jornalista e escritor uruguaio, define a utopia como algo que devemos projectar e ambicionar, mas não propriamente como algo que possamos efectivamente alcançar. O autor afirma que esta deve ser colocada à altura do nosso horizonte, o que é usualmente associado ao desconhecido, misterioso ou ainda encarado como algo aparente e longínquo. Assim, esclarece que a utopia deve ser encarada como uma motivação, quase como uma meta ou objectivo que deve ser comum aos seus protagonistas - todos nós, a meu ver. Assim, a única maneira de progredirmos, é procurar aproximar-nos dez passos dessa linha do horizonte, mesmo que ela nos afaste mais dez, pois, a meu ver, é a caminhar que mais rápido ou lentamente nos aproximamos do que consideramos enquanto propósito. 

A analogia à política parece-me clara. Procurar a utopia enquanto alternativa ao criticismo que vivemos, enquanto possibilidade de melhorar e contrariar a distopia que, segundo Stephen Duncombe, nos encontramos em. Caminhar, avançar e sobretudo projectar e não parar, pois o parar pode ser confundido com o perigo intrínseco ao desacreditar!